| Fonte: O Estado de S. Paulo Cronista apresenta as dez melhores orientações herdadas de Manuel Ribeiro 22 de março de 2011 | 0h 00 Ubiratan Brasil - O Estado de S.Paulo
Manuel Ribeiro foi um homem austero e assim educou seu filho mais velho, o hoje escritor e cronista do Estado João Ubaldo. Apesar da severidade paterna, os conselhos foram úteis para a formação do garoto, que não só os aplica como utiliza como fonte de inspiração - é o que explica o pequeno mas gostoso Dez Bons Conselhos de Meu Pai, lançado agora pela Objetiva.
Trata-se de uma obra infantil, em que ordens aparentes como "não seja burro" ou "não seja amargo" são repassadas de forma idílica. Sobre o assunto, Ubaldo respondeu às seguintes perguntas.
No livro Política, você repassa ao leitor os conselhos, de teor político, que seu pai lhe dava. Agora, temos o livro infantil. Por que você guardou durante tanto tempo esses conselhos?
Se você pergunta por que os guardei reservadamente, eu não fiz isso. Sempre reproduzi, de uma forma ou de outra, esses conselhos na minha vida cotidiana e os passava quando achava oportuno. Eles não eram sistematizados, como aparecem tanto no Política quanto no livro infantil, quem resolveu aproveitá-los em forma de "decálogo" fui eu. Se você se refere ao fato de eu ter preservado e observado esses conselhos ao longo de minha existência, é porque sempre os achei úteis e sempre procurei segui-los. Não são, é claro, nenhuma contribuição ao pensamento ocidental, mas apenas a sabedoria e os valores de um homem, como meu pai, que defendia a dignidade humana, a liberdade e a igualdade de direitos e deveres. São apenas palavras de um pai que quer educar seu filho dentro dos princípios que acata e considera eticamente fundamentados.
A forma como você se dirige à criança, no livro, assemelha-se à que seu pai utilizou?
Não. Ao longo de minha convivência com meu pai, eu fui "destilando" esses ensinamentos, a partir de conversas, repreensões, comentários sobre alguns acontecimentos familiares ou públicos. E a conduta dele, que - como costumam fazer os filhos em relação aos pais - eu admirava e procurava imitar, também me serviu de fonte para esses conselhos. E eu não escrevi o texto para crianças. Eles estão no livro infantil como estão no Política. Acho que dá para a meninada entendê-los bem, principalmente se discutidos ou analisados.
É curiosa a relação com seu pai, sempre muito duro em sua educação. Como você avalia hoje os métodos que ele utilizava?
Não acredito que os métodos de meu pai sejam hoje considerados, digamos, apropriados. Meu pai era um homem de temperamento forte, obcecado pela ideia de excelência em tudo o que se fizesse e muito rigoroso. Exigia muito, cobrava o tempo todo e me impunha tarefas de todo tipo, desde copiar sermões de Antônio Vieira nas férias escolares até "tirar" as letras das canções francesas que ele ouvia no que então se chamava de radiola. Fazia questão de boas notas, não tinha paciência com fracassos, não gostava de ouvir queixas ou lamúrias e dizia sempre que eu podia fazer melhor, era duro mesmo. Se eu, por exemplo, cometesse a imprudência de perguntar a ele o significado de uma palavra, ele me mandava ao dicionário e, quase sempre, copiar o verbete. Enfim, não creio que ele fosse o que poderia ser chamado de um educador moderno.
A biblioteca de seu pai era muito cobiçada. Como era o acesso?
O último casarão em que moramos, antes de a família sair de Aracaju e voltar para a Bahia, era enorme e tinha livros em todas as paredes, de praticamente todas as dependências da casa. Era impossível vedar o acesso aos livros, a não ser que se interditasse a casa. A gente tropeçava neles, passando pelos corredores. E eram livros sobre todos os assuntos. Meu pai era jurista e professor de História, mas se interessava por tudo, de Filosofia a esportes, de maneira que a livrama refletia isso. Eu podia ler o que quisesse, além do que ele mandava e dos livros que comprava para mim, como os de Monteiro Lobato. De vez em quando, ele proibia um livro, mas não o escondia. Depois de adulto, ele me contou que alguns dos livros eram proibidos mesmo, ai de mim, se tivesse sido pegado lendo um deles. Mas outros ele proibia para espicaçar minha curiosidade. Foi assim que, ao 10 anos, por exemplo, eu li Salambô, de Flaubert, achando que ia encontrar sacanagem. Devo ter lido uma porção de outros da mesma forma. Já os livros de meu avô, não tinham censura prévia nenhuma e eram uma esculhambação, porque ele roubava livros de meu pai e de todos os parentes e amigos, para depois soterrá-los numa montanha na casa dele, que eu podia escalar à vontade, talvez até pudesse chamar isso de alpinismo literário.
DEZ BONS CONSELHOS DE MEU PAI Autor: João Ubaldo Ribeiro Ilustrações: Bruna Assis Brasil Editora: Objetiva (56 págs., R$ 34,90)
Fonte: O Estado de S. Paulo Livro resgata caso da mulher que, sem saber, deu origem à linhagem celular mais usada em pesquisas científicas 22 de março de 2011 | 6h 00 Raquel Cozer - O Estado de S.Paulo
Depois de morrer, Henrietta Lacks percorreu o mundo e alterou os rumos da humanidade. Essa poderia ser, de forma bem resumida, a descrição da história real narrada em A Vida Imortal de Henrietta Lacks, livro de estreia de Rebecca Skloot. E, se causa estranheza, isso não chega perto da sensação que o leitor tem ao atravessar as cerca de 450 páginas resultantes de mais de dez anos de pesquisas da jornalista científica norte-americana.
Considerado um dos dez melhores títulos de 2010 por veículos como o New York Times, o Independent e mais algumas dezenas de publicações, a obra que sai agora pela Companhia das Letras destrincha a história por trás das primeiras células humanas mantidas vivas por cientistas fora do organismo, e que assim se mantêm há 60 anos - mais precisamente, as primeiras células imortais da história.
São as chamadas células HeLa (lê-se "rilá"), linhagem celular mais usada em pesquisas no mundo, conhecidíssimas entre pesquisadores da área biológica. O que ocorreu a Rebecca Skloot ainda na adolescência, ao ouvir falar pela primeira vez nessas células, foi um "detalhe" ao qual quase ninguém parecia dar muita atenção: por trás daquele objeto de infindáveis investigações houve uma vida que merecia ser reconhecida.
Essa vida, ouviu Rebecca do professor que lhe contou a história no colégio, foi a de Henrietta Lacks, uma ex-lavradora de tabaco no sul dos EUA, descendente de escravos, que morrera com câncer em 1951. "Naquela mesma época", conta a autora em entrevista por telefone ao Estado, "meu pai foi infectado por um vírus que lhe causou danos cerebrais e aceitou ser cobaia de uma pesquisa científica. Então, quando eu soube da existência de Henrietta Lacks, minha primeira curiosidade foi: ela teve filhos? Como eles se sentem em relação a tudo isso?"
O que ela descobriu foi que Henrietta nunca soube que haviam retirado uma amostra de suas células enquanto estava internada na enfermaria para "pessoas de cor" do Hospital John Hopkins, em Baltimore, Maryland - e que, quando sua identidade veio à tona, décadas depois, seus filhos teriam suas vidas invadidas por interesses científicos e jornalísticos.
Câncer. Aos 30 anos, mãe de cinco filhos, Henrietta chegara ao hospital alegando sentir um caroço na altura do útero, uma dor que escondia do marido e das crianças. Os médicos logo identificaram um tumor cervical e, sem pedir permissão, enviaram uma amostra das células cancerígenas a um pesquisador. Meses depois, Henrietta morreu tomada por tumores, embora os exames identificassem o controle da doença. O que ninguém esperava era que essas células, ao contrário de todas as outras usadas antes em pesquisas, eram capazes de se expandir sem limites. Essa inexplicável capacidade de sobreviver e se multiplicar fora do organismo tornou as células famosas no meio científico.
Ao longo das décadas, as células de Henrietta foram enviadas para laboratórios de todo o mundo, usadas em testes nucleares, enviadas para o espaço; tornaram-se fundamentais para as pesquisas mais importantes relacionadas a vacinas, quimioterapia, clonagem, mapeamento de genes, fertilização in vitro. A multiplicação foi tão impressionante que, como escreve Rebecca, "se fosse possível enfileirar todas as células HeLa já cultivadas, elas dariam ao menos três voltas ao redor da Terra, totalizando mais de 100 milhões de metros".
Os filhos foram localizados décadas depois da morte de Henrietta por estudiosos interessados em seu DNA - também sem o consentimento deles, que acreditavam estar apenas passando por exames para descobrir se não tinham o mesmo câncer da mãe - e expostos em reportagens e documentários, além de atrair a atenção de gente interessada em ganhar dinheiro em cima deles. Começaram a acreditar numa espécie de maldição envolvendo as células, que só lhes traziam desgostos.
Rebecca Skloot demorou mais de um ano até convencer Deborah, a filha de Henrietta mais engajada em recuperar a história da mãe, a dar entrevistas. Enquanto isso não acontecia, conversou com o marido e os outros filhos, vasculhou milhares de estudos científicos ("pesquisar sobre as células HeLa em bancos de dados científicos é como fazer uma busca pela palavra "e" no Google", compara), esmiuçou outros casos de pesquisas feitas sem consentimento dos pacientes e as lacunas da legislação.
Descobriu, entre outras coisas, que uma das filhas de Henrietta morreu internada numa instituição mental para negros, também cobaia involuntária de estudos medicinais. "Era um lugar onde os negros não eram bem tratados, como se pode imaginar de uma instituição assim por volta dos anos 50. Fiquei impressionada com os contornos soturnos disso tudo e entendi porque os filhos tinham tanta reticência em dar entrevistas. Essa história diz muito sobre a situação dos negros norte-americanos no século passado."
O maior mérito de A Vida Imortal de Henrietta Lacks, para além do exaustivo trabalho investigativo, é tornar humana uma história que, em mãos menos cuidadosas, poderia caber num compêndio científico. "Queria que parecesse ficção, mas com dados reais", conta a autora, que recorreu a diversos romances e filmes para encontrar o tom certo do texto, uma narrativa que intercala a biografia do Lacks com intrincadas questões sociais e científicas - e que, não à toa, está sendo transformado em filme pela produtora de Oprah Winfrey.
ENTREVISTA Rebecca Skloot JORNALISTA CIENTÍFICA, AUTORA DE A VIDA IMORTAL DE HENRIETTA LACKS ‘Li ficções para escrever o livro’
A obra inclui uma pesquisa biográfica e quase um estudo científico, são duas histórias que se cruzam. Como organizou isso?
Foi um desafio colocar aquele tanto de informações sem deixar confuso. Precisava contar as duas histórias ao mesmo tempo porque era importante que o leitor entendesse a parte científica ao mesmo tempo em que conhecesse o lado humano. E queria que o livro fosse lido como ficção, então li muitos romances estruturados assim.
Que tipo de romances?
Um dos que mais ajudaram foi Tomates Verdes Fritos, de Fannie Flagg, que tem três narrativas ao mesmo tempo. E Love Medicine, de Louise Erdrich, e As Horas, de Michael Cunningham. Entre os filmes, o que mais ajudou foi O Furacão, com Denzel Washington. Tomei o cuidado de, como no filme, fazer os capítulos correrem rapidamente para que a história não se perdesse. O livro vai virar filme?
Sim, está sendo transformado em filme por Oprah Winfrey e Alan Ball para a HBO. Sou consultora de roteiro, assim como a família de Henrietta. / R.C.
Fonte: Folha de S. Paulo Caderno: Ilustrada 19/03/2011
Volume reúne, em mais de mil páginas, os principais escritores do país, do Descobrimento aos dias de hoje
Autor gaúcho publica também "Os Viventes", conjunto de mais de 300 poemas que recriam a história da humanidade
MARCO RODRIGO ALMEIDA ENVIADO ESPECIAL AO RIO
Carlos Nejar divide os artistas em dois grupos: os que criam um pequeno jardim e os que fazem uma floresta.
Nejar optou pela floresta há 51 anos, ao lançar a coletânea de poemas "Sélesis", seu livro de estreia.
Desde então, o poeta, romancista, contista e crítico literário impôs-se uma tarefa nada singela: renovar o gênero épico, cujos modelos ocidentais por excelência são os poemas "Ilíada" e "Odisseia", atribuídos ao grego Homero.
Gaúcho de Porto Alegre, 72, há três anos no Rio de Janeiro, Nejar não desvincula a ambição do ato de criação.
"O artista não deve ser porta-voz do fracasso, do nada. Eu quero cantar a beleza, ser porta-voz da grandeza humana", diz.
No caso de Nejar, tal grandeza não é puramente uma questão de retórica poética, mas também algo tangível, pesado, com 1.106 páginas.
Caso o tamanho de "História da Literatura Brasileira", por si só, não impressione o leitor, há ainda o imponente subtítulo: "Da Carta de Caminha aos Contemporâneos".
Trata-se, diz, "de um livro sem precedentes no país".
Também pela editora Leya, a autor lança agora "Os Viventes", e não é mais modesto aqui.
Com mais de 300 poemas, a coletânea, explica ao autor, compõe "uma pequena "Divina Comédia'", espécie de painel da "condição humana" ao longo do tempo.
PRETENSÃO
Nejar, evidentemente, sabe vender bem o seu peixe, mas é difícil não pensar na palavra "épico" quando nos referimos à obra dele.
Lançada pela primeira vez em 2007, "História da Literatura Brasileira" consumiu mais de dez anos de pesquisa. Retorna agora com o dobro de páginas, quatro novos capítulos e a pretensão de mapear o que de mais significativo se produziu nas letras nacionais, do Descobrimento até hoje.
Estão lá, ao lado do português Caminha ("escreveu a primeira nomeação da nossa nacionalidade") e medalhões (Machado de Assis e Euclydes da Cunha), jovens autores como Daniel Galera e João Paulo Cuenca (ainda que apenas citados).
As histórias literárias anteriores, mesmo quando escritas por críticos renomados como Antonio Candido ou Alfredo Bosi, tinham para Nejar dois defeitos: ou abordavam apenas os autores já consagrados ou eram concisas demais.
No mais das vezes, eram também "muito didáticas, uma chatice".
O leitor perceberá que a nova versão de Nejar, no entanto, também tem lá suas idiossincrasias.
Autores hoje já esquecidos (Moacir Piza, Alceu Wamosy) ganham mais espaço que fortes nomes contemporâneos (como Milton Hatoum e Sérgio Sant'Anna, ambos apenas citados na lista de nomes surgidos após 1970).
Também não é incólume a erros. Michel Laub, por exemplo, surge como Lamb.
A seu favor, Nejar argumenta que o livro "é uma visão pessoal e amorosa, com coragem para enfrentar os escritores atuais e atacar mitos e igrejinhas".
Dos mitos fazem parte "A Pedra do Reino", livro de Ariano Suassuna que Nejar diz ser "obra confusa e ilegível", e a poesia concreta, "da qual não posso falar, porque é algo que não existe".
TIRO NO FUTURO
De um encontro com Nejar, saímos com a impressão de que ele incorporou o tom homérico na própria vida.
O poeta vive em frente ao mar da Urca, num local batizado de "Casa do Vento".
A decoração e a arquitetura da casa lembram o interior de um grande navio.
Elza, com quem está casado há 23 anos, recebeu dele o apelido de "Espanto".
Quando lê um poema, Nejar o faz com a eloquência que costumamos associar aos antigos trovadores.
"Não estou na moda, não sou badalado. Não sou um poeta fácil", resume ele. Pois o Nejar crítico não tornará o Nejar poeta mais compreensível. "É claro que não me cito na "História da Literatura Brasileira". Não poderia falar de mim mesmo, seria muito cabotinismo."
Secretamente, contudo, sabe bem o papel épico (como sempre) que gostaria de ocupar com "Os Viventes", recriação poética da história da humanidade que resume 30 anos de trabalho do autor.
"Me enquadro na tradição de Cabral e Drummond. Eu atiro para o futuro."
Enquanto espera pelas glórias vindouras, Nejar não tem motivos para queixar-se.
""Os Viventes" é um livro único no panorama da poesia brasileira contemporânea, e quiçá em toda a nossa poesia", escreveu o poeta Ivan Junqueira.
Já o conterrâneo Tarso Genro lhe disse que a "História da Literatura..." apresenta uma "poetização genial".
Neste caso, Nejar viu-se obrigado a discordar de um dos dois termos usados pelo governador do Rio Grande do Sul. "Não há poetização ali", explicou.
-------------------------------------------------------------------------------- HISTÓRIA DA LITERATURA BRASILEIRA AUTOR Carlos Nejar EDITORA Leya QUANTO R$ 99,99 (1.106 págs.) OS VIVENTES QUANTO R$ 69,90 (560 págs.)
Fonte: Folha de S. Paulo Caderno: Ilustrada 19/03/2011 Livro de Haroldo de Campos, publicado em 1989, ataca visão de Antonio Candido sobre Gregório de Mattos
-------------------------------------------------------------------------------- ENTRE EXCLUIR O BARROCO DO ESTUDO E INCLUÍ-LO, COMO ANTECIPAÇÃO DO CARÁTER NACIONAL, QUAL É PIOR? DIFÍCIL E VÃ ESCOLHA --------------------------------------------------------------------------------
ALCIR PÉCORA ESPECIAL PARA A FOLHA
Acaba de ser reeditado um livro que, nos idos de 1989, foi um clímax da velha guerra entre "sociológicos" da USP e "formalistas" da PUC.
É "O Sequestro do Barroco na Formação da Literatura Brasileira: O Caso Gregório de Mattos", de Haroldo de Campos (1929-2003).
No texto, Haroldo critica a exclusão de Gregório de Mattos -e do Barroco como um todo- do processo de constituição do "sistema literário nacional", tal como postulado pela "Formação da Literatura Brasileira" (1959), de Antonio Candido.
O núcleo da crítica incide sobre o que considera o "modelo semiológico" estreito e a "perspectiva histórica linear" da "Formação".
Em relação ao primeiro ponto, Haroldo observa que o esquema autor-obra-público de Candido privilegia a função "emotiva" dos textos, tendo em vista o célebre esquema de Roman Jakobson.
Ou seja, Candido valorizaria os termos comunicativos e expressivos das obras, quando o "sujeito lírico" manifesta a sua individualidade ou representa certa faceta da realidade vivida. O resultado é um cânone nacional "romântico imbuído de aspirações classicizantes".
Sobre o segundo aspecto, Haroldo observa que a perspectiva histórica da "Formação" é linear, integrativa e teleológica, pois postula uma origem "simples", datada "convencionalmente" (1750), que se torna complexa até atingir o ponto pleno.
Tal é o momento em que o espírito da literatura nacional se conhece a si mesmo, como história consciente, dotada de autonomia e continuidade de tradição.
Para Haroldo, a origem da literatura brasileira não é simples, mas "vertiginosa". Com Gregório e o barroco, "já "nasceu" adulta, formada, no plano dos valores estéticos, falando o código mais elaborado da época".
Propõe então uma história "constelar", "inconclusa", com destaques para seus "momentos de ruptura e transgressão", e não de continuidade e formação.
Poderiam então ser sincronizados, no eixo do barroco, autores como Gregório, Euclydes, Cabral, Rosa, e naturalmente a vanguarda concretista, além de artistas como Glauber e Caetano.
ESCOLHA DIFÍCIL
Tudo certo, não fosse contradição (num texto que critica o romantismo nacionalista de Candido): a reinvidicação do barroco como "nosso" e de Gregório como precursor da "comicidade "malandra" em nossa literatura" ou como "primeiro antropófago experimental da nossa poesia".
Entre excluir o barroco do estudo sob a alegação de estar ausente da formação nacional, e incluí-lo, como antecipação do nacional, qual é pior? Difícil e vã escolha.
Irônico é que, após descontruir a "Formação", o Gregório "original e revolucionário" de Haroldo é, por assim dizer, pego no contrapé por um autor que nada tinha a ver com o "culto reverencial" a Candido.
Em "A Sátira e o Engenho", também de 1989, João Adolfo Hansen contestou o sentido "carnavalizante" da sátira de Gregório, mostrando o fundo conservador de suas tópicas, no que foi seguido também por Alfredo Bosi, em ensaio de 1992.
Hansen mostrou ainda que os poemas de Gregório eram atribuições apócrifas, de modo que o seu nome deveria ser entendido mais como uma "etiqueta" de autoridade associada ao gênero da sátira do que como uma autoria original e única.
Tais pontos, é forçoso admitir, lançaram um "coup de vieux" no debate anterior, de modo que, ao contrário do que diz Affonso Ávila, em seu prefácio à nova edição, todo o assunto, hoje, tem de ser reavaliado em bases tão diversas do "Sequestro" como da "Formação".
ALCIR PÉCORA é professor de teoria literária na Unicamp -------------------------------------------------------------------------------- O SEQUESTRO DO BARROCO NA FORMAÇÃO DA LITERATURA BRASILIERA AUTOR Haroldo de Campos EDITORA Iluminuras QUANTO R$ 35 (128 págs.) AVALIAÇÃO bom
Fonte: O Estado de S. Paulo Caderno: Caderno 2 Gay Talese conviveu anos com mafiosos da família Bonanno para escrever o aclamado Honra Teu Pai 20 de março de 2011 | 0h 00 Ubiratan Brasil - O Estado de S.Paulo
Quando o jornalista Gay Talese cruzou o olhar com o mafioso Bill Bonanno, sabia que teria uma das melhores histórias de sua carreira. Era 1965 e Talese, repórter do New York Times, acompanhava o julgamento de Bill, filho do famoso Joe Bonanno, chefe de uma das famílias da máfia que controlaram atividades ilegais em Nova York durante as duas décadas anteriores. "Eu insistia em entrevistá-lo e argumentava que contaria a versão deles e não a do FBI, como fazia a imprensa da época", relembra Talese, que reconheceu naquele olhar o esperado consentimento.
DivulgaçãoCapo. Joe Bonanno lidera saga familiar narrada em detalhes por Gay Talese Mesmo assim, não foi imediato - o repórter gastou dois anos em insistências e, depois do "sim", esperou outros dois até poder iniciar a escrita do que seria um de seus melhores livros, Honra Teu Pai (tradução de Donaldson M. Garschagen), recém-lançado pela Companhia das Letras. Trata-se de um raio X da máfia americana, como ele conta nessa entrevista.
O que o atraiu na história da família Bonanno?
Acho que curiosidade é o que domina o cérebro de um repórter. Eu já me interessava pela máfia aos 12 anos, na década de 1940, quando, durante a guerra, agentes de segurança do governo americano, preocupados com a proteção das áreas marítimas, foram obrigados a se envolver com gangues mafiosas, pois elas dominavam os sindicatos portuários. Outro motivo é minha origem italiana - havia muita desconfiança sobre os italianos nos EUA durante a guerra, todos associados de alguma forma a Mussolini e a Hitler. Como repórter, cheguei a cobrir histórias da máfia até que, em 1965, acompanhei um julgamento da família Bonanno. Joe e seu filho Bill eram acusados de promover uma guerra entre facções mafiosas. O fato atraiu grande parte da mídia e, num determinado momento, quando a corte estava em recesso, eu me aproximei de Bill Bonanno e insisti em entrevistá-lo. Eu dizia que não me interessava pela versão da polícia e do FBI. Minha intenção era descrever o que se passava na cabeça de um chefe da máfia, como se organizava a família, sua hierarquia, os direitos e os deveres de cada membro.
E o que aconteceu?
Bill, que tinha praticamente a mesma idade que a minha, me olhou e não disse nada mas, pelo contato visual, percebi que ele entendeu minha intenção: que o que eu dizia fazia sentido para ele. Então, iniciei um trabalho de persuasão a fim de que Bill aceitasse me receber. Foram dois anos de insistência, até que ele e o advogado concordaram em jantar comigo. A condição era que não seria uma entrevista, apenas uma conversa. Aceitei e, durante o encontro, como eu sabia que Bill, assim como eu, tinha dois filhos e em idades semelhantes aos meus, eu o convidei para vir um domingo à noite à minha casa, com a mulher e os filhos, sem compromisso de entrevista. Para minha surpresa, ele respondeu: "Claro!". Foi o suficiente para quebrar o gelo, mas ainda esperei dois anos até ter permissão para começar a escrever.
Bill Bonanno sentia-se abençoado ou amaldiçoado pela vida que levava?
Creio que ambos. É algo que envolve toda família que detém algum poder. Veja o caso do Egito: Mubarak assemelhava-se a um chefe da máfia e preparava seu filho para sucedê-lo, assim como Bill receberia do pai o controle da família. O mesmo se passava com Kadafi e seus dependentes, e também com os filhos de reis sauditas - todos acreditavam ser abençoados porque receberiam o poder. E o que acontece? Revoluções impedem que o processo se concretize e todos aqueles privilégios não servem para nada. O mesmo se passou com a família Bonanno. Foi nessa época - creio que em 1970 - que recebi permissão para publicar nossa conversa. Até então, tudo o que apurava era computado como um aprendizado: durante 4 anos, coletei dados sem poder escrever uma linha. Precisei de mais um ano para então terminar o livro. Visitei Bill na prisão e também depois que foi solto. Sempre mantivemos contato - ele tentou controlar a máfia da região de São Francisco, foi preso novamente, nós envelhecemos, nosso filhos nos deram netos, enfim, cobri todas as gerações que viveram nos Estados Unidos da família Bonanno. Foi um árduo trabalho de apuração, não há uma linha ficcional no texto.
Bill foi um mafioso inteligente?
Não como deveria. Afinal, o bom mafioso é mais esperto do que a polícia: ele está acima da lei e não é submetido a ela. Bill, ao contrário, foi preso várias vezes, principalmente por ter usado um cartão de crédito que não lhe pertencia. Isso é estupidez. Seu pai, Joe Bonanno, também foi preso mas era mais esperto. Ele passou 18 meses desaparecido sem que ninguém, nem a polícia, soubesse de seu paradeiro. Isso é fantástico. Dizia-se que era um sequestro e eu só descobri que era uma armação 30 anos depois.
O que foi mais difícil em seu longo trabalho de apuração?
Creio que foi ter paciência. As pessoas têm uma visão deslumbrada da máfia, como se só acontecessem trocas de tiros, assassinatos, perseguição de carros. Na verdade, há muita chatice envolvida. É como estar em uma prisão: nos momentos mais delicados, seja na guerra com outras famílias, seja fugindo da perseguição policial, os mafiosos eram obrigados a passar dias e dias escondidos em apartamentos, sem fazer nada, apenas assistindo novelas na TV. É estar preso sem usar uniforme. É muito aborrecido. E ainda com a obrigação de devotar sua vida a outros que fazem o mesmo, ou seja, uma irmandade que não pode ser quebrada.
É por isso que esse é um de seus livros preferidos?
Sim. Gosto muito desse e de A Mulher do Próximo. O que gosto em Honra Teu Pai foi a possibilidade de ter acompanhado toda a história, do começo ao fim - o livro foi publicado em 1971 e mesmo agora, 40 anos depois, mantém um frescor pois se trata de uma narrativa não ficcional. Tive a chance de acompanhar Bill Bonanno até sua morte, dois anos atrás. Aliás, nós nos vimos pela última vez um mês antes de sua morte. Enfim, manter uma proximidade com os personagens de sua reportagem é um privilégio.
E quando o senhor pretende publicar seu próximo livro, sobre seu casamento de 50 anos com a agente literária Nan Talese?
Pretendo terminá-lo no próximo ano. Minhas impressões serão confrontadas com as da minha mulher. Será a crônica de um casamento de meio século, uma reportagem sobre a intimidade do lar.
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